“Os mercados ascendentes nascem do pessimismo, crescem no cepticismo, amadurecem no optimismo e morrem na euforia. O momento de máximo pessimismo é o melhor momento para comprar.”
— Sir John Templeton
Se abriste a carteira nos últimos dias, estás perante um mar de vermelho. Estranhas porque há dois meses sentias que este touro era imparável. E a julgar pela força da tua convicção no futuro, investiste em Tecnologia. Provavelmente em semicondutores, inteligência artificial e data centers. Não te podemos censurar. E estás a sofrer tanto como nós. Bom, eventualmente mais. Mas já lá vamos.
O que aconteceu, afinal?
A ansiedade alimenta-se do desconhecimento, portanto comecemos pelos factos.
A 29 de julho, o Nasdaq 100 fechou com 27.192,31 pontos, cerca de 11% abaixo do pico de junho. O índice de semicondutores entrou em queda livre, desvalorizando perto de 25% desde 22 de junho. E Julho foi, para as tecnológicas, um dos piores meses de que há memória recente.
Os estragos individuais foram ainda maiores. A SanDisk, até há bem pouco tempo a melhor ação do S&P 500, perdeu mais de metade do seu valor. A Micron perdeu perto de um terço. Na Ásia, Samsung e SK Hynix chegaram a cair mais de 15%. A memória, até agora a menina bonita da narrativa da inteligência artificial, passou a ser o epicentro da liquidação.
Mas repara num pormenor revelador: num dia em que o Nasdaq mergulha, o Dow Jones sobe mais de 500 pontos. O pânico não foi generalizado. Foi uma fuga dos setores quentes para indústria, energia e banca. Por vezes o mercado dispara primeiro e faz questões depois e, com isso, expurga a falta de qualidade.
A mecânica da queda
Parte da explicação para esta queda é que ela não foi provocada por má execução nem por más notícias sobre as empresas envolvidas. Foi provocada, de certa forma, pela maneira como o dinheiro estava posicionado, especificamente agora.
Segundo os dados da Goldman Sachs Prime Services, os hedge funds tinham concentrado a sua exposição a semicondutores de 10% no início do ano para um pico de 24% em junho. Estavam todos do mesmo lado do barco e, quando a maré virou, a natureza mecânica destas estratégias forçou vendas em cascata, com os mesmos gestores a reduzir risco, todos ao mesmo tempo e nas mesmas ações. Foi, nas palavras da Goldman, a maior redução de exposição a tecnológicas no seu registo de mais de uma década.
Juntaram-se-lhe outras forças, todas menores mas a agir em simultâneo: ganhos acumulados a pedir realização de lucros depois de um semestre forte, baixa liquidez durante a sazonalidade típica do verão e rebalanceamentos de fim de trimestre. A isto juntou-se a estreia em Xangai de uma fabricante chinesa de memória com uma valorização de 466% no primeiro dia a reavivar o fantasma da concorrência e, pelo meio, a Reserva Federal de Kevin Warsh manteve as taxas, mas com três dissidentes a quererem subi-las, o maior número desde 2016.
Vincent Lin, da Goldman Sachs, põe água na fervura ao momento, chamando-lhe “um reajustamento saudável, não uma perda completa de convicção nos fundamentais”.
Já aconteceu. Várias vezes.
Olhemos para trás: desde 1928, o mercado americano teve 27 bear markets. Um a cada três anos e meio, em média. A queda média foi de cerca de 35% e durou aproximadamente dez meses. E a recuperação demorou, em média, dois anos e meio.
Os episódios de que ainda falamos hoje foram todos piores do que este. Em 1973-74, o Dow perdeu 45%. Entre 2000 e 2002, o Nasdaq caiu 78%. Leste bem, setenta e oito por cento. E demorou quinze anos a recuperar o máximo. Em 2008-2009, o S&P 500 perdeu 57%. Em março de 2020, o mercado caiu mais de 30% em trinta e três dias de negociação. Em 2022, o Nasdaq caiu um terço.

Cada um destes momentos pareceu, no momento em que aconteceu, o fim de qualquer coisa. Cada um teve a sua própria explicação convincente para justificar que “desta vez era diferente”. E cada um deles é hoje, no gráfico de longo prazo, uma ondulação num percurso ascendente, sempre para cima e para a direita.
E o que acontece depois?
A estatística que mais importa não é a da queda. É a do que se segue.
Desde 1950, quem comprou o S&P 500 no fim de qualquer mês que tivesse caído 10% ou mais estava, em média, 15% acima um ano depois, 42% acima ao fim de três anos e 72% acima ao fim de cinco. Quem comprou depois de quedas de 20% ou mais teve um desempenho ainda melhor: 17%, 45% e 74%.
Mas colem isto na vossa parede, frigorífico ou monitor: nos últimos vinte anos, cerca de 42% dos melhores dias do mercado aconteceram durante bear markets. Não antes, nem depois. Durante. Outros 36% aconteceram nos dois primeiros meses de uma recuperação, antes de ser óbvio que uma recuperação tinha começado sequer. Por outras palavras: os melhores dias andam de mãos dadas com os piores.
A consequência disto é transformadora. Segundo a J.P. Morgan Asset Management, $10.000 investidos no S&P 500 entre 2005 e 2024 cresceram até $71.750, mas apenas para quem esteve sempre investido. Para quem falhou apenas os dez melhores dias desse período, cresceram apenas até $32.871. Menos de metade. E sete desses dez melhores dias aconteceram a menos de duas semanas de distância dos dez piores.

É por isso que o inimigo raramente é o mercado. Somos nós próprios, com os nossos impulsos e o nosso medo.
Uma oportunidade épica para criar valor
Em 1974, com o Dow abaixo dos 600 pontos e o pessimismo ao rubro, um jornalista da Forbes perguntou a Warren Buffett como via o mercado. A resposta celebrizou-se: “Como um homem com apetite a mais num harém. É a altura certa para começar a investir.”
Isto não é bravura cega. É uma leitura fria e calculista dum homem que entendeu que o preço estava totalmente desligado do valor. Trinta e cinco anos depois, em plena crise de 2008, publicou no New York Times um texto com o título “Buy American. I Am.” E voltou a acertar.
John Templeton fez o mesmo em 1939, com a Europa a entrar em guerra: comprou 104 ações americanas abaixo de um dólar, mais de trinta delas já em falência. Quadruplicou o dinheiro em quatro anos. Só quatro dessas empresas foram efetivamente a zero.
O padrão histórico é sistemático: algumas das maiores fortunas de sempre foram construídas comprando exatamente nos períodos mais conturbados, quando o pessimismo e o medo dominavam e quando era mais difícil comprar.
A verdade mais dura
Agora a pior parte. Comprar numa queda não é uma garantia. A Cisco era, em 2000, uma das empresas mais admiradas do mundo, com um negócio sólido e lucros incontestáveis. Quem a comprou no pico daquele ano só recuperou o investimento em dezembro de 2025, vinte e cinco anos depois. A Amazon caiu mais de 90% na bolha de 2000 e passou praticamente a década seguinte abaixo dos níveis de 1999, antes de se tornar no gigante que hoje todos conhecemos. A Qualcomm precisou de vinte anos.
As quedas não vão ser sempre oportunidades. Mas o preço a que compramos importa. Para além disso, a paciência que se nos exige pode ser desumana e nem todas as empresas que caem voltam a reerguer-se. Algumas perdem a sua vantagem competitiva pelo caminho e nunca mais a recuperam.
Mesmo o conceito de “qualidade” não é garantido. Em 2022, o índice de qualidade da MSCI caiu 23% contra 18% do mercado geral. Isto porque, hoje, “qualidade” e “crescimento tecnológico” podem bem ter-se tornado, em grande medida, a mesma coisa, e a subida das taxas penalizou-as em conjunto.
O que distingue, afinal, este momento?
A diferença essencial está entre uma correção de múltiplos e uma correção de lucros. Nesta correção, os lucros não se deterioraram e, em alguns casos, estão em máximos absolutos. A SK Hynix reportou no primeiro trimestre deste ano um lucro operacional recorde, com margem operacional de 72% e receitas a crescerem 198% face ao ano anterior. A capacidade de memória de alta largura de banda da Micron está esgotada até 2027. O que caiu foi o preço que o mercado está disposto a pagar por esses lucros, não os lucros.
É normal que o nosso cérebro amedrontado compare este momento com o ano 2000. Mas olhemos, novamente, para os números: naquela altura, as dez maiores empresas do S&P 500 transacionavam a um múltiplo de 43x os lucros contra 21 do resto do mercado, um prémio de 100% por um grupo que gerava menos de 20% dos lucros totais. Hoje, transacionam a cerca de 31x contra 21, um prémio de aproximadamente 50%, e geram perto de 30% dos lucros do mercado. A concentração é extrema, não há dúvida, mas está ancorada numa execução operacional com os pés bem assentes no chão, longe da bolha especulativa do passado.
Estes factos não anulam os riscos. O investimento em infraestrutura de inteligência artificial deverá aproximar-se dos 700 mil milhões de dólares este ano só nas cinco maiores empresas tecnológicas, financiado em parte com uma dívida crescente e que não está ainda totalmente esclarecida, e a receita gerada por essa infraestrutura poderá estar ainda muito aquém de justificar esse esforço. Se o capital investido abrandar ou se a China criar excesso de capacidade em memória, a história de 2000 volta ao nosso radar. É um risco, mas temos de saber distinguir o medo de perigo.
A dor da perda
Nesta altura já todos percebemos que as quedas doem e que o futuro é incerto. E agora?
Daniel Kahneman demonstrou que a dor de uma perda pesa cerca do dobro do prazer de um ganho equivalente. É por isso que os mercados em queda nos parecem sempre mais graves do que se revelam, e é por isso que o instinto nos empurra para a porta de saída exatamente no pior momento. Dados da Morningstar quantificam o custo dessa fuga: ao longo da última década, o investidor médio ficou 1,2 pontos percentuais por ano atrás dos próprios fundos onde investia. Não por escolher mal os fundos, mas por escolher mal os momentos de entrada e saída.
Peter Lynch resumiu isto de forma insuperável: perdeu-se muito mais dinheiro a preparar antecipadamente as correções do que alguma vez se perdeu nas próprias correções.
O problema é a volatilidade, que na verdade é o verdadeiro preço que pagamos pelos retornos superiores a longo prazo. Quem não estiver disposto a pagá-lo tem alternativas legítimas, mas terá também os retornos dessas alternativas.
Olhemos agora para a natureza da oscilação do gráfico. As melhores empresas do mundo estã hoje mais baratas do que estavam há dois meses, sem que os seus lucros tenham diminuído. Isso não significa que não possam ficar ainda mais baratas. Ninguém sabe. E quem disser que sabe está a inventar. Ou pior ainda, a mentir.
A pergunta não é “quando é que isto acaba?”
A pergunta é: daqui a dez anos, quando olhar para trás, vou lembrar-me deste mês como aquele em que perdi dinheiro ou como aquele em que comprei barato?
Notas
Este documento reflete uma análise fundamentada baseada em dados públicos e uma opinião pessoal. Não constitui uma recomendação individualizada de investimento. Os dados de mercado referem-se a 29 de julho de 2026 e alteram-se diariamente. O desempenho passado não garante resultados futuros.
Toda e qualquer decisão de investimento é da exclusiva responsabilidade do investidor.
Investir envolve o risco de perda de capital.
Fontes dos dados: Bloomberg e Nasdaq (níveis de índice e magnitudes de queda); Goldman Sachs Prime Services, via a série “The Markets” de 24 de julho de 2026, com declarações de Vincent Lin (posicionamento e redução de exposição de fundos); Reserva Federal (decisão de 29 de julho de 2026); Hartford Funds e Ned Davis Research (frequência e duração histórica de mercados baixistas); Ben Carlson, A Wealth of Common Sense (retornos após quedas mensais de 10% e 20%, S&P 500 desde 1950); J.P. Morgan Asset Management (custo de falhar os melhores dias); Morningstar, Mind the Gap 2025 (diferencial de retorno do investidor); Forbes (1974) e The New York Times (2008) para as declarações de Warren Buffett; MSCI (comportamento do fator qualidade); resultados reportados pela SK Hynix e Micron; Columbia Threadneedle e Goldman Sachs (comparação de múltiplos com o ano 2000).
