Introdução
Durante mais de uma década, uma frase repetiu-se como se fosse uma lei da física: o software estava a comer o mundo. Cada indústria, mais cedo ou mais tarde, seria devorada por linhas de código. Esta frase tornou-se lentamente numa profecia, e a profecia tornou-se uma das maiores criações de riqueza da história dos mercados.
Mas 2026 virou a profecia do avesso e o conhecido predador passou a uma presa fácil e indefesa perante um novo apex, a inteligência artificial.
Estes receios são muito concretos. Desde o início do ano, o índice que acompanha as empresas públicas de software nos Estados Unidos caiu cerca de 17%, e perto de 26% face aos máximos do outono de 2025 e as dez maiores empresas do setor evaporaram, em conjunto, quase $800 mil milhões em valor de mercado. Isto não representa apenas uma correção de expetativas. É uma reavaliação profunda do valor deste mercado.
Mas este medo, afinal, justifica-se?
O que mudou
Vivemos com a IA generativa já há vários anos. Então porquê agora?
A resposta está no mundo corporativo. Até há pouco, a IA vivia sobretudo no mundo do consumidor, no assistente que responde a perguntas, gera imagens e conversa connosco num chat. As ferramentas que realmente mexem com o tecido das grandes organizações estavam atrasadas, travadas por questões de segurança, conformidade e fiabilidade dos dados.
Mas esse atraso acabou. Surgiram entretanto agentes capazes de executar tarefas complexas dentro das empresas, transformando profundamente o coração do trabalho empresarial. Isto criou um confronto massivo entre novos players e aqueles gigantes a que nos acostumámos. E o mercado está muito assustado com isso.
Os observadores treinados
Curiosamente, alguns dos observadores mais experientes do setor não acreditam que o software esteja condenado. E o argumento deles é, curiosamente, muito elegante.
A IA, dizem eles, é software. É código desenhado para executar tarefas. Em vez de destruir o setor, deverá expandi-lo, alargar o mercado, multiplicar os use cases, criar procura onde não existia. O problema não é o tamanho do bolo, que tende a crescer, mas sim perceber quem fica com as novas fatias.
E é aqui que está o verdadeiro risco para as empresas instaladas. Não é desaparecerem. É de serem relegadas para o negócio antigo, de serem o sistema de registo, o arquivo digital onde vive a informação crítica de uma organização. Entretanto, os novos concorrentes, nascidos já dentro da era da IA, capturam as oportunidades emergentes, desferindo o golpe final, não da morte súbita, mas da irrelevância lenta e duradoura.
Mas há uma defesa. Os incumbentes não estão parados. Têm os mesmos modelos de IA que os rivais, têm equipas de engenharia de topo, têm balanços robustos. E têm algo que o dinheiro não compra de um dia para o outro: anos de experiência de domínio, dados proprietários, conhecimento profundo de como funcionam os fluxos de trabalho de um advogado, de um contabilista, de um gestor de uma seguradora. Um concorrente bem financiado pode, com tempo, replicar isto. Mas o tempo, nos mercados, é tudo.
Os vulneráveis e os protegidos
Nem todo o software é igual perante a IA. E é esta a distinção que separa um investidor atento de um investidor assustado.
De um lado temos o software horizontal: as ferramentas genéricas, vendidas ao posto de trabalho, ao número de utilizadores. É aqui que surgem as primeiras falhas. Se um colaborador, munido de agentes de IA, faz o trabalho de três, a empresa precisa de subscrever menos licenças. O preço por utilizador, durante anos a galinha dos ovos de ouro do setor, transforma-se numa vulnerabilidade. Não é por acaso que gigantes como a Salesforce, a Workday e a ServiceNow foram forçados, em 2025 e 2026, a reinventar os seus modelos de negócio e a migrar para sistemas baseados em consumo e em resultados. Quando uma indústria inteira muda, sob pressão, a forma como cobra os seus serviços, isso deve dizer-nos muito.
Por outro lado, o software vertical: construído para uma indústria específica, embebido em processos críticos e alimentado por dados que mais ninguém tem. É mais difícil de atacar, tem um fosso competitivo mais forte. Os dados estão fechados, os custos de mudança são altos, e em muitos casos há camadas de conformidade regulatória que levam anos, às vezes décadas, a replicar. A IA, para estas empresas, não é necessariamente um predador. Pode até ser um motor evolutivo.
Um relógio suíço no meio da tempestade
Há uma empresa que personifica exemplarmente esta segunda categoria: a Roper Technologies.
É uma pérola. Vista de fora, parece um conglomerado de software. Vista de dentro, é uma máquina de composição de capital. Cerca de três quartos do seu negócio consistem em software vertical, espalhado por nichos tão pouco glamorosos quanto inexpugnáveis: software para prestadores de serviços ao governo, seguradoras, terapias para autismo, serviços de logística e transportes. Não está no negócio das ferramentas. Está no negócio dos alicerces de indústrias inteiras.
O números corroboram esta perspetiva, particularmente num ano em que todo o setor tremeu. No primeiro trimestre de 2026, as receitas cresceram 11%, com o crescimento orgânico nos 6%. O free cash flow, a obsessão da casa, subiu 11% para $562 milhões no trimestre. A gestão, em vez de se encolher perante o perigo, recomprou $1,5 mil milhões em ações e reviu em alta as suas projeções para o ano. É o chamado double down.
A prova mais cabal vem até de uma das suas empresas, a CentralReach. Há dois anos, nenhuma das suas novas vendas envolvia IA. No primeiro trimestre de 2026 eram já 75%. A IA não está a engolir este negócio. Está a fazê-lo crescer. As notas clínicas que demoravam dez minutos passaram a demorar trinta segundos, devolvendo horas de trabalho aos profissional. Isto não é uma ameaça, é um argumento de venda.
Mas importa, ainda assim, não confundir esta adaptação com absoluta imunidade. A sua divisão de prestadores governamentais, a Deltek, tem sofrido com os atrasos na despesa pública americana. Mas note-se, aqui o problema pode ser cíclico e não estrutural. Um problema não da IA a avançar sobre o fosso, mas um problema da agenda política a atrasar contratos. São assuntos distintos que o mercado, na sua pressa habitual, nem se dá ao trabalho de separar.
O que isto significa para nós
Para o investidor comum, a lição não é fugir do software. É olhar com mais atenção. Aplicar as mesmas regras. São sempre as mesmas. Moat, pricing power, cash flow, buybacks…
A história ensina-nos que setores sob ameaça de disrupção não recuperam em forma de “V”. As cotações dos clássicos jornais americanos, no início dos anos 2000, caíram cerca de 95% ao longo de cinco anos, e só estabilizaram quando os seus lucros estabilizaram. A narrativa só se desfaz quando os números a contradizem. Enquanto isso não acontece, continuamos a viver num mundo de medo, pânico e desconfiança.
Por isso, a palavra de ordem é, mais uma vez, serenidade. Nada de apostas binárias de sobrevivência e colapso. Moat, pricing power, cash flow, buybacks…
Não vamos inventar a roda. As regras são as mesmas. Sempre.
A questão pertinente
Há um padrão que se repete na história da tecnologia. Cada grande mudança de plataforma, a base de dados relacional, a internet, a cloud, foi anunciada como o fim de um paradigma que a precedeu, ou de uma indústria inteira. E quase sempre, no meio da destruição anunciada, houve sobreviventes que se adaptaram e emergiram como vencedores.
A pergunta não é se a IA vai transformar o software. Vai, sem dúvida. A pergunta é outra: estamos nós, investidores, a confundir as empresas que vão ser destruídas com as que vão sair mais fortes do outro lado? Quanto vale, hoje, saber distinguir umas das outras?
O mercado está a vender toda a indústria como um bloco. A História sugere que raramente as coisas acabam desta forma.
Nota Este documento não constitui aconselhamento financeiro, recomendação de investimento, nem sugere qualquer estratégia ou timing de mercado.
Toda e qualquer decisão de investimento é da exclusiva responsabilidade do investidor.
Investir envolve o risco de perda de capital.
