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A importância do número 46

06 de julho de 2026

A importância do número 46
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Com tempo suficiente, o pouco que se transforma em tudo

Introdução

Há um número que deve ficar gravado na memória de todos os investidores. Entre 1926 e 2025, um século inteiro de capitalismo, foram cotadas 29.081 empresas nas bolsas americanas. Destas, apenas 1.082 foram responsáveis por toda a riqueza líquida criada acima do que um investidor teria ganho com simples obrigações do Tesouro.

Mil e oitenta e duas. Três vírgula sete por cento. Tudo o resto, no agregado, anulou-se a si próprio e os ganhos de umas empresas compensaram exatamente as perdas das outras.

E se quisermos ser ainda mais cruéis com esta estatística, basta olhar para metade dessa riqueza. Metade de toda a criação de valor de um século inteiro coube a apenas 46 empresas. Quarenta e seis. Num universo de quase trinta mil. Um número que, arredondado, se aproxima perigosamente de zero.

Esta é, talvez, a verdade mais incómoda e mais libertadora dos mercados financeiros. Só mesmo a MoneyFlix para falar dela.

A tirania dos poucos

Estamos habituados a pensar na bolsa como uma maré que levanta todos os barcos. Compra-se um pouco de tudo, espera-se, e o conjunto sobe. Mas a realidade é bem mais darwiniana.

A esmagadora maioria das ações não só não bate o mercado, como fica atrás de um simples depósito a prazo. Temos de dizer isto, ou não fossemos nós a MoneyFlix. Ao longo de toda a sua vida pública, perto de 60% das empresas americanas tiveram um retorno negativo face às obrigações do Tesouro. A ação mediana, aquela que está exatamente no meio da tabela, perdeu dinheiro. Isto não é a exceção. Esta é a inexorável regra nos mercados.

O significado disto é profundo. O retorno extraordinário do mercado ao longo de um século não veio da generalidade dos ativos. Veio de um punhado minúsculo de empresas que subiram tanto, e durante tanto tempo, que arrastaram toda a estatística para cima e para a direita. É nosso apanágio referir que as perdas de uma ação estão limitadas a 100%. Não se pode perder mais do que se investiu. Mas os ganhos não têm um limite. Uma única empresa pode multiplicar o capital por mil. Ou por mais. E são essas raras vencedoras que pagam a conta de todas as outras.

A pergunta que se impõe é óbvia e devemos fazê-la: se o sumo vem de tão poucas companhias, o que têm elas em comum?

Uma das conclusões mais curiosas destes dados é que as maiores criadoras de riqueza raramente parecem óbvias no início da sua história. Muitas das empresas que hoje dominam os mercados passaram anos sem atrair grande atenção por parte dos investidores.

Por essa razão, uma das decisões mais importantes não é tentar adivinhar onde surgirá a próxima grande vencedora, mas garantir acesso a um universo suficientemente amplo de oportunidades. Afinal, os vencedores das próximas décadas podem surgir nos Estados Unidos, na Europa, na Ásia ou em setores que hoje poucos acompanham.

A Freedom24 oferece acesso a ações, ETFs e obrigações de mercados internacionais através de uma única conta.

O denominador comum

Quem se debruçar sobre esta lista das maiores criadoras de valor de sempre vai encontrar um padrão que se repete com teimosia. A qualidade mais comum entre elas não é a genialidade de um produto, nem uma epifania momentânea. É o poder de mercado.

A maioria destas empresas detinha algum tipo de monopólio, duopólio ou oligopólio. Não um monopólio artificial, concedido por um Estado, mas posições de mercado que foram construídas ao longo de décadas. São estruturas de mercado concentradas, em que um número reduzido de empresas domina uma parte significativa de um setor à escala global. Estas características tendem a criar barreiras de entrada elevadas, historicamente associadas a períodos prolongados de crescimento e criação de valor empresarial.

Investidores de qualidade nos Estados Unidos têm vindo a defender, com crescente convicção, uma ideia simples com origem neste dado: Algumas das empresas que historicamente mais valor criaram para os acionistas apresentavam características comuns, entre elas posições de mercado fortes e equipas de gestão com elevada capacidade de execução. 

As pedras basilares da economia

Vamos concretizar. Pensemos numa das empresas com maior relevância para a cadeia global de semicondutores. A Taiwan Semiconductor fabrica mais de 60% de todos os semicondutores do planeta, e cerca de 90% dos chips mais avançados, os que alimentam a revolução da inteligência artificial. Praticamente todos os processadores de ponta das maiores tecnológicas do mundo nascem nas suas fábricas. É por isto que uma pequena ilha se tornou um dos pontos mais sensíveis da geopolítica mundial. Uma interrupção prolongada da sua capacidade produtiva teria consequências significativas para a cadeia global de tecnologia. 

E há mais exemplos desta mesma natureza, empresas cuja interrupção prolongada da sua capacidade produtiva teria consequências significativas para a cadeia global de tecnologia. A que desenha a maioria dos chips de inteligência artificial do mundo. A que detém mais de metade do mercado global de um equipamento sem o qual nenhum semicondutor moderno seria fabricado sem defeitos. A que produz os motores que põem no ar três em cada quatro aviões comerciais. A que fornece quase um terço de todos os gases industriais do planeta e que, curiosamente, alimenta quatro em cada cinco lançamentos espaciais nos Estados Unidos. A que construiu metade das linhas de transmissão elétrica de longa distância de um país inteiro.

Repare-se no que estas empresas têm em comum. Nenhuma delas é glamorosa. Nenhuma é notícia diária. Mas cada uma ocupa posições relevantes nos respetivos mercados. 

A questão pertinente

Mil e oitenta e duas empresas em quase trinta mil. Quarenta e seis a explicar metade de tudo.

A reação natural a esta estatística pode ser o desânimo: se a criação de valor se concentra em tão poucas empresas, será possível identificar antecipadamente quais terão sucesso? Mas há outra leitura possível. Estes dados mostram que a criação de riqueza nos mercados acionistas não foi distribuída de forma uniforme ao longo do último século. Pelo contrário, esteve fortemente concentrada num número reduzido de empresas que conseguiram manter posições competitivas relevantes durante longos períodos de tempo.

Mais do que oferecer respostas simples, esta realidade convida-nos a refletir sobre as características que permitiram a algumas empresas destacar-se ao longo de décadas e sobre a dificuldade inerente em distinguir, antecipadamente, os futuros vencedores dos restantes participantes do mercado.

A verdadeira questão é outra e devemos refletir sobre ela: que características explicam a capacidade de algumas empresas criarem valor durante longos períodos de tempo? 

Os dados deste estudo mostram que as empresas que mais riqueza criaram ao longo do último século representam apenas uma pequena fração do mercado. O desafio é que ninguém sabe hoje quais serão as próximas 46.

Por essa razão, uma das decisões mais importantes para qualquer investidor é garantir acesso a um universo suficientemente amplo de empresas, setores e mercados.

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Notas

Os dados sobre a criação de riqueza no mercado acionista dos Estados Unidos baseiam-se na investigação académica de Hendrik Bessembinder (Arizona State University), no estudo que cobre o período de 1926 a 2025. Este documento reflete uma análise fundamentada baseada em dados públicos e uma opinião pessoal. Não constitui uma recomendação individualizada de investimento. 

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